Estou lendo essa preciosidade literária de Ray Bradbury, lançada em 1953 e transformada em filme em 1966 pelo diretor François Truffaut. O livro conta a história de uma sociedade futura controlada pelos meios de comunicação de massa, em especial a TV (algo bem distante de nossos dias, não é mesmo?). Nessa sociedade, os livros haviam sido condenados e, por isso, deveriam ser queimados. Os encarregados dessa função passaram a ser os bombeiros. Mas um deles, Guy Montag, começa a tomar consciência da situação através dos livros que roubou em uma de suas ações diárias e, com a ajuda de um professor aposentado, Faber, resolve fugir da cidade.
Um dos trechos mais belos do livro se dá quando Montag vai à casa de Faber à procura de ajuda, e acontece o seguinte diálogo:
"- O que o abalou dessa forma? O que arrancou a tocha de suas mãos?
- Não sei. Temos tudo de que precisamos para ser felizes, mas não somos felizes. Alguma coisa está faltando. Olhei em volta. A única coisa que tive certeza que havia desaparecido eram os livros que queimei durante dez ou doze anos. Por isso, achei que os livros poderiam ajudar.
- Você é um romântico incurável! - disse Faber. - Seria cômico se não fosse trágico. Não é de livros que você precisa, é de algumas coisas que antigamente estavam nos livros. As mesmas coisas poderiam estar nas 'famílias das paredes'. Os mesmos detalhes meticulosos, a mesma consciência poderiam ser transmitidos pelos rádios e televisores, mas não são. Não, não. Absolutamente não são os livros o que você está procurando! Descubra essa coisa onde puder, nos velhos discos fonográficos, nos velhos filmes e nos velhos amigos; procure na natureza e procure em você mesmo. Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há neles nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós, a partir de retalhos do universo. É claro que você não poderia saber disso, é claro que você ainda não pode entender o que quero dizer com tudo isso. Mas intuitivamente está certo, isso é o que conta. Três coisas estão faltando. A primeira: você sabe por que livros como este são tão importantes? Porque têm qualidade. E o que significa a palavra qualidade? Para mim significa textura. Este livro tem poros. Tem feições. Este livro poderia passar pelo microscópio. Você encontraria vida sob a lâmina, emanando em profusão infinita. Quanto mais poros, quanto mais detalhes de vida você conseguir captar numa folha de papel, mais 'literário' você será. Pelo menos, esta é a minha definição. Detalhes reveladores. Detalhes frescos. Os bons escritores quase sempre tocam a vida. Os medíocres apenas passam rapidamente a mão sobre ela. Os ruins a estupram e a deixam para as moscas."
Continua no próximo post.
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