quinta-feira, 22 de abril de 2010

O poema de Quintana

Houve um tempo em que eu não podia comprar livros. O jeito era ir à biblioteca, escolher alguns – eram sempre de poesia – e anotar, no caderninho que me acompanhava, os poemas que me alimentavam. Às vezes, eram encontros furtivos, pequenos versos, uns trechos apenas. Noutras, a experiência era fulminante. Não que os poetas, em minha leitura ressuscitados, viessem explodir palavras ritmadas ao meu ouvido. Não, não era isso. Era simplesmente a alegria inquieta de ler algo e me questionar: como pode alguém escrever com tanta simplicidade e dizer as coisas mais profundas? Como usar palavras tão cotidianas, invisíveis de tanto uso, e, ao uni-las, formar uma outra realidade tão fecunda de significados?

Picasso disse certa vez que só depois de uma vida inteira aprendeu a pintar como criança. Com as palavras se dá o mesmo. Há quem pense a poesia como uma carruagem cheia de enfeites, tão enfeitada que sequer conseguimos ver os talhes na madeira ou as engrenagens da roda. Procuramos a matéria bruta, viva, de que se valem os poemas, mas o que vemos é somente o disfarce... No entanto, há aqueles para quem a menor imagem, a mais cotidiana, aquela que por isso mesmo ninguém vê, é a essência da poesia. Algo assim como um garimpar incessante. Depois de prontos para a vida que nos planejam, é árduo fazer o percurso de volta, é árdua a “aprendizagem de desaprender”, como dizia Caeiro.

Um desses poemas que, na sua aparente simplicidade, se colocam como um verdadeiro tratado estético da palavra foi escrito por Mário Quintana. Chama-se O POEMA. Curiosamente, foi construído sem qualquer conjugação verbal, o que insinua sua atemporalidade, ou, como o próprio autor diria em outro texto, “eternamente/ esse gosto de nunca e de sempre”.

“Um poema como um gole d’água bebido no escuro”, sim, porque se o corpo se alimenta de matéria, o espírito se alimenta da palavra. É ingerindo essa palavra, deixando-a fazer parte de nós como algo rotineiro, que passamos a ser e a transformar. Interessante é essa comparação, porque quando acordamos no meio da noite, e com sede, ou tomamos água ou não dormimos mais, ou seja, a falta dessa água-palavra nos incomoda.

“Como um pobre animal palpitando ferido”, grávido de inocência, de instinto e capaz de despertar a compaixão humana. Não sei se acontece com todo mundo, mas eu, por exemplo, tenho uma fixação inexplicável nos olhos dos cães vira-latas: parece que quando os olhamos, são eles que estão a nos olhar, perscrutando o mais íntimo de nós, aquilo que escondemos ou julgamos perdido.

“Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta noturna”. Quando leio esse verso, fico me questionando o porquê da moeda de prata. Talvez porque se ele tivesse escrito “ouro” algo de mercantil se insinuasse, dada a simbologia do termo. Além disso, prata lembra a luz da lua, pelo menos é assim que a descrevem. Assim, nessa floresta noturna – seria a morte? o esquecimento? O inconsciente? – somente a lua, essa que é carente de luz própria, que é mais um astro boiando na amplidão, daria conta do ínfimo brilho da moedinha, o poema mais escondido, engavetado, o que se escreve só no pensamento.

“Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de poema”, livre de engajamentos sociais, de abstrações, um poema feito de palavras, imerso no insondável universo da palavra, e só. “Triste. Solitário. Único.”, três adjetivos procurando definir o rosto do poema: na tristeza de ser pura palavra, e, assim, representação; na solidão do momento em que nasce, ainda que nasça no/por meio de muitos homens; na unicidade, porque, mesmo sabendo que “todos os poemas são um mesmo poema”, uma palavra nunca se repete: o momento é outro e, por isso, ela também o é.

E, para fechar o círculo, um poema “ferido de mortal beleza”. Eis a intriga: pode a beleza nos matar? Não sei se tenho uma resposta, mas creio que se alimentar do belo nesse mundo cerceado pelos modismos, pela superficialidade, pode ter seu lado fatal. Van Gogh, numa carta ao irmão, disse: “Ache belo tudo o que puder, a maioria das pessoas não acha belo o suficiente”. Procurar beleza pode nos afastar dos outros, mas, por outro lado, a recompensa é gratificante, pois a vida passará em nós com muito mais sentido.

Quintana prefere não definir o que é o poema, ou melhor, não o consegue – e quem conseguiria? – definir senão por imagens, pois são elas que sustentam toda a poesia. E o faz procurando, garimpando aquelas mais simples e cheias de sentido, para que só quem tem olhos e ouvidos possa ver e entender. O leitor que não se iluda diante da simplicidade nem se contente apenas com esses versos, afinal é uma injustiça deixar passar despercebida a obra de um poeta que se fez menino para aprender a não passar, mas a passarinho. À leitura, então!


(Professora Kalliane Amorim.)


Nenhum comentário:

Postar um comentário